Espetáculo ‘Vozes da Floresta’ emociona público no Espaço Chico Mendes na COP30. “É um luto muito vivo pelo Chico”
A peça Vozes da Floresta, dirigida e protagonizada por Lucélia Santos, tomou conta do Espaço Chico Mendes nos dias 15 e 16 de novembro, em programação conjunta do Comitê Chico Mendes e da Fundação Banco do Brasil durante a COP30. O espetáculo, que percorre o país desde 2022, chegou a Belém em uma data carregada de simbolismo: a um mês de 15 de dezembro, aniversário de Chico Mendes, que completaria 81 anos em 2025 caso não tivesse sido assassinado aos 44. No mesmo período, todo o Acre celebra a Semana Chico Mendes, que vai do dia do nascimento ao dia da morte do líder seringueiro, em 22 de dezembro.

A apresentação integrou a agenda cultural e política do espaço, reforçando o papel da arte como instrumento de memória, denúncia e mobilização na maior conferência climática do mundo sediada no Brasil. Diante de um auditório lotado, Lucélia revisitava a trajetória de Chico enquanto a COP30 discutia transição climática, justiça ambiental e proteção de defensores e defensoras da floresta.
Ao ser perguntada sobre o que ainda a atravessa ao encenar a peça após três anos de circulação, Lucélia não hesitou.
“A coisa sempre se repete, é mesmo um luto muito vivo que eu tenho pelo Chico. É uma história que me atravessou”, afirmou.
A atriz recordou a parceria profunda que mantinha com Chico Mendes antes do assassinato.
“Eu mudei a minha ideia sobre o Brasil depois que mataram o Chico Mendes, porque eu jamais acreditaria que aquilo fosse possível de acontecer. Era mesmo um companheiro muito próximo. A gente estava muito próximo naquela altura, trabalhando diariamente juntos, a gente se falava o tempo inteiro, fazia planos.”
Para ela, a memória de Chico nunca deixou de ser uma ferida aberta.
“Sempre é uma semana muito triste para mim. Às vezes a gente vai lá para Chapuri. Houve uma série de encontros ao longo dos anos em comemoração e a memória dele. E é sempre uma semana muito triste”, disse, emocionada.
O espetáculo não apenas rememora a luta de Chico, mas se expande para outras violências que seguem marcando o Brasil contemporâneo. Lucélia destacou a cena final, quando o elenco lê o inventário de vítimas recentes de conflitos no campo e ataques a defensores ambientais.
“Você viu a lista desse inventário de mortos que a gente apresenta no final. Em dez anos foram mais de 370 pessoas assassinadas. E a cada dia, se você abrir esse vídeo, você pode acrescentar nomes, é muito triste. Isso o Brasil tem que mudar”, afirmou.
A atriz ampliou o debate ao relacionar o legado de Chico às violências estruturais que atravessam o país.
“A violência é intolerável, é intolerável. A gente não pode admitir isso agora. A gente tem tantas coisas para falar sobre isso, sobre feminicídio, sobre a violência contra a mulher, assassinato de mulheres, violência contra pessoas trans. Isso abre um leque de conversa que a gente vai ficar até amanhã de manhã falando.”
A apresentação de Vozes da Floresta no Espaço Chico Mendes reforçou a presença da arte como ferramenta de resistência e de afirmação política na COP30. Em um momento em que o mundo olha para Belém em busca de caminhos para uma transição ecológica justa, o espetáculo devolve ao debate climático sua dimensão humana, histórica e emocional.
