Comitê Chico Mendes leva debate sobre territórios amazônicos à Green Zone da COP30
O Comitê Chico Mendes realizou nesta quinta-feira (13) uma das palestras mais densas e politicamente incisivas da Green Zone da COP30, “Território como Voz: caminhos para uma governança participativa”, reafirmando sua missão de fazer na conferência o mesmo trabalho que Chico fazia em vida: defender os territórios, denunciar desigualdades e demandar soluções reais para juventudes e povos tradicionais amazônicos. Em um espaço marcado por disputas narrativas, a participação do Comitê reforçou a necessidade de recentrar a Amazônia na voz de quem vive nela, e não apenas em índices ou imagens abstratas.

A mesa reuniu jovens lideranças extrativistas e indígenas que trouxeram leituras críticas sobre o território como eixo estruturante do debate climático. Khelven Castro, pesquisador acreano e integrante da delegação do Comitê, apontou que a própria forma de representar a Amazônia ainda carrega traços coloniais. Ele afirmou:
“Eu acredito que para nós termos um profundo entendimento do que é a Amazônia, é preciso pautar o território, justamente para a gente não homogeneizar as nossas florestas. A ideia de que a Amazônia é só uma coisa, só floresta, só um bioma, é uma ideia muito atrasada e que remete a traços de colonização e retrocesso”.
Sua fala contestou a tendência de apresentar a região como unidade homogênea, apagando populações, modos de vida e conflitos que definem a luta histórica por justiça socioambiental.
Khelven destacou ainda que ocupar a Green Zone com vozes amazônicas é uma forma direta de romper essa invisibilização.
“Quando a gente pauta o território na Green Zone, quando a gente pauta o território na COP30, trazendo as pessoas que vivem nesses territórios, em diferentes espaços, a gente vai fazendo essa contranarrativa e mostrando que não é só uma floresta, que não é só um bioma, mas que são pessoas, que são sujeitos, que são histórias e principalmente que são protagonistas”, disse.
O jovem lembrou que toda a arquitetura da COP existe em função do meio ambiente e completou:
“Vamos começar a pensar também nessas pessoas que estão abaixo da copa das árvores”.
A palestra também trouxe a força de lideranças que vivem diretamente os impactos de grandes empreendimentos sobre rios e territórios tradicionais. Sara Lima, coordenadora da Aliança dos Povos pelo Clima, apresentou um testemunho contundente sobre permanência territorial, deslocamento forçado e perda de identidade cultural. Ela afirmou:
“Quando eu falei que a gente tem que permanecer no território, é porque quando chega grandes empresas no nosso território, que nem a hidrelétrica, elas coagem, matam o rio, tiram todo o sustento onde o povo tem que sair do seu território para procurar outro lugar para sobreviver”.
Sara descreveu a ruptura existencial provocada pela saída compulsória.
“O povo do território não conhece outro lugar como o território. Ele nasceu ali, viveu ali, a sua vivência foi ali. Ele tem conexão com o rio, ele tem conexão com a floresta, ele é o peixe que nada”.
A liderança relatou casos de adoecimento, depressão e perda de identidade entre famílias obrigadas a deixar suas comunidades.
“Se tirar do território, vão morrer. Muitos que saíram tiveram problema de pressão, outros tentaram tirar a vida, outros perderam sua identidade como pescadores artesanais”.
Ao explicar por que sua permanência é inegociável, ela resumiu:
“Temos que viver no território porque o território é a nossa casa, o território é onde a gente nasceu, o território é conectado com nós povos”.
Questionada se pretendia continuar vivendo em sua comunidade, ela respondeu:
“Eu não me vejo em outro lugar sem ser no meu território, porque o meu território é uma conexão que eu tenho, é raiz. Essas raízes já estão enraizadas profundamente, onde a dor de um rio é a minha dor. A dor de um povo que está passando necessidade é a minha dor”.
A presença do Comitê Chico Mendes na Green Zone reforça uma linha estratégica consolidada ao longo da COP30: levar para o centro da conferência a perspectiva de que crise climática é crise territorial, e que nenhum mecanismo de financiamento, transição energética ou política ambiental será eficaz sem reconhecer o protagonismo das populações amazônicas. A partir das falas de Khelven e Sara, a mesa destacou a urgência de políticas públicas que protejam territórios, garantam permanência comunitária e combatam projetos que violentam rios, florestas e histórias.
