Mostra de cinema Pachamama ocupa a COP30 e atualiza o ‘Empate’ no Espaço Chico Mendes e Fundação BB

Com exibições diárias e curadoria militante, Mostra Pachamama transformou o estande da Fundação BB em trincheira cultural. “Não estamos mais pedindo espaço, estamos ocupando”, afirma o cineasta Sérgio de Carvalho

Exibição do filme “Empate” conectou a resistência histórica de Chico Mendes às lutas do presente. Foto: Alexandre Noronha

Em meio às negociações de alto nível e aos debates técnicos que dominaram a COP30, uma luz diferente brilhou no Espaço Chico Mendes, fruto da parceria com a Fundação Banco do Brasil. Durante todos os dias do evento, a Mostra de Cinema Pachamama não ofereceu apenas entretenimento, mas abriu um canal direto para a alma da Amazônia. Através das telas, o cinema amazônico, indígena e periférico reivindicou seu lugar não como espectador da crise climática, mas como protagonista da narrativa de defesa da vida.

Organizada pela Saci Filmes, a presença da Pachamama no espaço foi descrita por seu criador, o cineasta Sérgio de Carvalho, como um movimento de afirmação territorial. Se no ano passado o festival realizou uma itinerância histórica de reencontro pós-pandemia pela Amazônia brasileira e peruana, na COP30 a missão foi de enfrentamento simbólico.

“Foi um reencontro bonito, forte e necessário”, define Sérgio. “Levar o Pacha pra COP foi como abrir um portal: as obras, as vozes, as lideranças… tudo ressoou num território que, sinceramente, costuma ser dominado por discursos técnicos e muito pouco pela sensibilidade do território vivo.”

A programação

A seleção de filmes transformou o auditório em um espaço de escuta ativa. De documentários sobre desastres ambientais a curtas poéticos sobre a vida ribeirinha, a programação foi um mosaico das dores e potências da floresta. Confira as obras que integraram a mostra no Espaço Chico Mendes:

  • O Último Azul (Dir. Gabriel Mascaro)

  • Mercado de Histórias (Dir. Alcinete Damasceno)

  • Plantadores D’Água (Dir. Dani Bertollini)

  • Mestras (Dir. Aíla e Roberta Carvalho)

  • Thiago & Isis e Os Biomas do Brasil (Dir. João Amorim)

  • O Monstro de Ferro Contra o Sul da Bahia (Dir. André D’Elia)

  • Pau D’Arco (Dir. Ana Aranha)

  • Rejeito (Dir. Pedro de Filippis)

  • Amazônia, o Coração da Mãe Terra (Dir. Gert-Peter Bruch)

  • Meus Santos Saúdam Teus Santos (Dir. Rodrigo Antonio)

  • Ela Mora Bem Ali (Dir. Rafael Rogante e Fabiano Barros)

  • Solitude (Dir. Tami Martins)

  • Hélio Melo (Dir. Leticia Rheingantz)

  • Para’í (Dir. Vinicius Toro)

  • Cheiro de Diesel (Dir. Natacha Neri)

  • Gyuri (Dir. Mariana Lacerda)

  • Empate (Dir. Sérgio de Carvalho) – Filme de Encerramento

Para Sérgio, essa diversidade e a presença constante da Mostra provam uma mudança de paradigma:

“Pra mim, o Festival estar na COP foi a certeza de que nosso cinema — amazônico, periférico, indígena, militante — não está mais pedindo espaço. Ele está ocupando. E ocupando bonito.”

O ápice da programação foi a exibição do filme “Empate”, dirigido por Carvalho, fechando o ciclo de projeções com uma mensagem poderosa sobre a continuidade da luta de Chico Mendes. Para quem estava presente, ficou claro que a tela de cinema, naquele contexto, funcionou como uma extensão das barricadas humanas que impediam o desmatamento nas décadas de 70 e 80.

“Cinema é o megafone da floresta. No ‘Empate’ — e também no empate simbólico que vivemos hoje — o cinema funciona como uma espécie de ritual coletivo. Ele chama, convoca, lembra e cutuca”, explica o diretor.

A exibição final transcendeu a arte e se tornou manifesto:

“A projeção de Empate na COP foi quase um ato político em si: mostrar que aquilo que o Chico e o povo da floresta fizeram lá atrás ainda ecoa nos corpos vivos de hoje. Resistência não é passado, é prática diária. E a tela ajuda a manter essa chama acesa.”

Novos varadouros

O “mutirão” cinematográfico serviu para energizar a equipe da Saci Filmes e da Pachamama para os próximos passos. O objetivo agora é amadurecer a presença internacional e infiltrar a sensibilidade amazônica nos espaços de decisão, sem nunca perder a conexão com a base.

“O Pacha nunca descansa, né? A gente só respira fundo, recolhe a energia do que acabamos de viver e já começa a plantar a próxima fase”, projeta Sérgio.

Entre os planos, estão o desejo de novas itinerâncias, formação e a criação de um circuito amazônico mais forte.

“O Pacha tá vivo, crescendo, pulsando — e consolidando novos varadouros”, conclui o cineasta.

No Espaço Chico Mendes, as luzes do projetor se apagam, mas a imagem projetada na retina e na consciência de quem passou por lá permanece acesa.

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