Defensoras e defensores da floresta no centro da COP30: redes de proteção e cuidado coletivo no Espaço Chico Mendes
O oitavo dia, nesta sexta-feira (14), da programação no Espaço Chico Mendes e Fundação BB na COP30, no Campus de Pesquisa do Museu Paraense Emílio Goeldi dedicada aos defensores da floresta, aprofundou um dos temas mais urgentes da Amazônia: a segurança de quem protege territórios, vidas e futuros. As mesas reuniram familiares de lideranças assassinadas, organizações históricas da pauta socioambiental e ativistas que constroem, no cotidiano, redes de cuidado diante da violência que se intensifica sobre quem enfrenta o avanço do desmatamento, da mineração e dos conflitos agrários.

A manhã começou com o painel A transição climática e social deve reparar os crimes ecológicos e os crimes dos direitos humanos, que trouxe familiares de vítimas de conflitos no campo, entre eles Luzia Canuto de Oliveira Ferreira, Elias Diniz Sacramento, Arlete de Aviz Lira Melo e Raimundo Júnior. O grupo apresentou denúncias, memória e reivindicações por verdade, justiça e reparação, ancorados na experiência de décadas de violência agrária na Amazônia. Para eles, qualquer transição justa precisa reconhecer o legado de violações, responsabilizar mandantes e proteger as novas gerações de trabalhadores rurais e comunidades tradicionais.
No final da manhã, teve início o painel Segurança e Proteção dos Defensores do Clima: Redes de Proteção e Cuidado Coletivo, com participação de Angela Mendes, Observatório do Clima, Instituto Zé Cláudio e Maria e Associação Kanindé. A mesa trouxe protocolos comunitários, práticas de acolhimento e experiências de cuidado desenvolvidas por mulheres e organizações em regiões de conflito. O debate reuniu Tatianny Cristina (Rede Jandyras e Observatório do Clima), Claudelice Santos, Neidinha Suruí e Sarah Marques, cujas trajetórias marcam profundamente a agenda de proteção na Amazônia.
Em seu depoimento, Tatianny Cristina refletiu sobre a urgência de fortalecer ferramentas reais de apoio, ressaltando o descompasso entre a burocracia institucional e o risco cotidiano vivido por defensoras e defensores. Ela afirmou que:
“Essas mulheres precisam de cuidado, que essas mulheres precisam acessar recursos de maneira mais desburocratizada porque a vida acontece aqui, as ameaças acontecem aqui, hoje, então o tempo do recurso, o tempo do homem branco não é o tempo da gente”.
Tatianny lembrou que a luta frequentemente é um lugar de dor, mas que a construção de redes de afeto e proteção é o que mantém vivas as trajetórias de resistência:
“A gente está aqui para se acolher, para se abraçar e juntas a gente se fortalece e continua”.
Ela destacou ainda o compromisso coletivo de impedir que novos assassinatos ocorram, citando Chico Mendes, Bruno Pereira e Dom Phillips como símbolos de uma história que não pode se repetir. Para ela, o painel se tornou um chamado para uma aliança ampla e permanente em defesa dos defensores da floresta.
Ao longo do dia, a presença de Angela Mendes deu centralidade ao legado de seu pai, conectando passado e presente da luta socioambiental no Brasil. As mesas reforçaram que proteger defensoras e defensores é proteger a própria Amazônia, suas culturas e seus futuros.
