No quinto dia da COP30, Cultura de Floresta guia debates, arte e mobilização no Espaço Chico Mendes

O quinto dia de atividades do Espaço Chico Mendes e Fundação Banco do Brasil na COP30 consolidou a Cultura de Floresta como eixo essencial da transição climática justa. Entre painéis, apresentações artísticas, caminhada comunitária e cinema, o campus virou ponto de encontro de lideranças extrativistas, movimentos sociais, artistas, catadores, jovens amazônidas e representantes de fundos comunitários. A programação mostrou, ao longo de todo o dia, que cultura, clima e território formam um só corpo, inseparável das lutas por justiça socioambiental.

Caminhada pelo bairro Terra Firme foi o destaque do dia. Foto: Eduardo Pereira

A manhã abriu com o painel Financiamento para povos e comunidades tradicionais, coordenado pelo Conselho Nacional das Populações Extrativistas e mediado por Letícia Moraes. A mesa reuniu Fundo Brasil, Fundo Casa, Fundo Podáali, Fundo Mizizi Dudu e Fundo Puxirum para discutir caminhos de acesso direto aos recursos climáticos por comunidades que já atuam na proteção dos territórios e na gestão da biodiversidade. O debate reforçou a urgência de ampliar mecanismos que reconheçam o protagonismo dos povos da floresta e descentralizem o financiamento climático global.

Em seguida, o Movimento Amazônia de Pé trouxe o painel Cultura, Clima e Território, com apresentação de Leila Borari. O encontro destacou como a defesa da floresta depende da mobilização popular e da comunicação territorializada. Ao conectar denúncias, arte e incidência, o movimento apontou que as vozes de comunidades amazônidas precisam ocupar o centro da COP30, especialmente em um momento histórico em que o mundo olha para Belém em busca de soluções concretas e democráticas.

A tarde iniciou com o Teatro de Lambe, do Coletivo de Animadores de Caixa. A atividade movimentou o campus com intervenções cênicas que ativaram memórias, histórias e afetos amazônicos, lembrando que a arte também é um dispositivo político na construção das lutas socioambientais.

Logo depois, o painel Mulheres Catadoras e o Impacto das Mudanças Climáticas reuniu Roselaine Mendes, Claudete Costa e Marcela Vieira. As falas evidenciaram a centralidade das mulheres catadoras como agentes ambientais e trabalhadoras que reduzem emissões, enfrentam desigualdades e sustentam famílias inteiras com a reciclagem. Claudete resumiu a força dessa atuação ao afirmar que:

“a reciclagem gera trabalho e renda, né? Que não fosse esse trabalho, muitos de nós não teria como sobreviver, porque vive unicamente da reciclagem do seu trabalho que exerce no dia a dia.” Ela lembrou ainda que sua trajetória vem de longe. “Eu tenho 36 anos de catadora e impactou de me reconhecer enquanto uma agente ambiental, uma profissional da reciclagem enquanto catadoras e poder fazer parte dessa construção de geração de trabalho e renda.”

O ponto mais esperado da programação do dia foi o painel Cultura de Floresta, organizado pelo Comitê Chico Mendes e apresentado por Anaís Cordeiro, com mediação de Thalita Vasconcelos. Participaram Kailane, jovem extrativista e líder comunitária; Karla Martins, produtora cultural e ativista; e Kleytton Morais, presidente da Fundação Banco do Brasil. VandsMile, artista e articuladora do Comitê, guiou a reflexão sobre como práticas culturais da floresta são tecnologias de mitigação climática e construção de futuros sustentáveis. A mesa destacou que a Amazônia não pode ser vista apenas como bioma, mas como sistema vivo de saberes, rituais, artes, memórias e modos de vida que sustentam a existência coletiva. O diálogo chamou atenção para a ligação entre floresta e cidade, mostrando que ambas respiram juntas.

O momento também contou com dois depoimentos recitados no auditório por integrantes da programação cultural, revelando a dimensão poética e espiritual do dia. O primeiro deles, em tom declamado, evocou a memória de Chico Mendes, a força dos seringueiros e a grandeza da floresta.

“O presente e o futuro espelhou desta grandeza amada. Os seringueiros, o gentil reservar do Brasil. Gigantesco, forte e linda na palma e na flora. É quem respira o afuro para o mundo. Eu sou um pieiro, feio de justiça, é bravo e forte. Chico Mendes, borrão, não tem medo a lutar e não tem medo quem te venceu a própria morte.”

O segundo depoimento destacou o papel da arte como forma de resistência.

“Dizer que a arte ela grita por nós, ela nos representa, ela representa o nosso sentimento e dizer que através da arte, através da poesia, do poema, da música, que nós vamos atingir e sensibilizar a mente das pessoas que não conhecem a nossa história. Porque só quem sente é nós, a dor, a necessidade que nós sentimos.”

Ainda na tarde, o Teatro de Bonecos Matintas fez uma apresentação na entrada principal, mobilizando famílias, crianças e moradores da região com narrativas encantadas da floresta. Logo depois, o Comitê Chico Mendes, o Museu Goeldi e lideranças comunitárias conduziram a Caminhada no bairro Terra Firme.

O trajeto, com carro de som e atividades culturais, levou informações da COP30 para dentro do território, criando pontes entre o debate climático global e a vida cotidiana de uma comunidade urbana amazônica que enfrenta desigualdades profundas.

O dia encerrou com a exibição de Thiago & Isis e Os Biomas do Brasil, dirigido por João Amorim, apresentada por Denise e Luck. O filme dialogou com a proposta do dia ao abordar biodiversidade, ancestralidade, infância e futuro, reforçando que a cultura de floresta é também uma cultura de cuidado e imaginação.

Confira a galeria de fotos da Caminhada pelo Bairro Terra Firme feita por Eduardo Pereira/Comitê Chico Mendes:

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