Comitê Chico Mendes afirma seu legado seringueiro na maior Marcha pelo Clima da história das COPs
A manhã de sábado, 15 de novembro, marcou um dos momentos mais expressivos da COP30: a realização da maior Marcha Global pelo Clima já registrada em uma conferência da ONU. As ruas de Belém foram tomadas por povos indígenas, extrativistas, juventudes, quilombolas, movimentos urbanos e organizações socioambientais que transformaram a cidade no verdadeiro epicentro político da luta climática. O Comitê Chico Mendes teve participação estratégica, reafirmando que a Amazônia não é cenário, mas território vivo, marcado por protagonismo, disputa e esperança.

A marcha consolidou um contraste explícito com os limites da Blue Zone, onde a participação de movimentos sociais é historicamente reduzida. Angélica Mendes, articuladora do Comitê e neta de Chico Mendes, reforçou essa diferença ao destacar que só nas ruas é possível expressar a força real dos territórios. Ela afirmou:
“A gente começa com o Brasil mostrando a força do movimento social e a democratização do espaço, porque dentro da COP na Zona Azul a gente não consegue ter esse tamanho e essa força. A outra marcha pelo clima que eu fui, na COP 28, era a gente andando em círculo, bem mais simbólica. Aqui a gente está mostrando um ato grande, revolucionário, a união dos povos”.
A presença massiva de organizações amazônicas fortaleceu o caráter político da marcha. Leila Borari, da Amazônia de Pé, contextualizou a dimensão histórica do ato:
“Essa vai ser a maior marcha pelo clima que já aconteceu em uma COP, por ela ser aqui no Brasil, um país democrático. É o momento em que a gente faz ecoar nossa voz, nossos pedidos, nossas denúncias. Esse espaço aqui é nosso, esse território é nosso. Aqui a porta está aberta, não é como a Zona Azul que tem portas fechadas”.
A mobilização também foi marcada pela presença das ministras Marina Silva, do Meio Ambiente e Mudança do Clima, e Sonia Guajajara, dos Povos Indígenas, que acompanharam a abertura da marcha e reforçaram o papel estratégico dos movimentos sociais, dos povos tradicionais e da democracia brasileira neste momento decisivo para o planeta.

Marina Silva iniciou sua fala reconhecendo o sentido político da ocupação das ruas. Ela disse:
“É muito bonito ver a democracia se expressando nas ruas, em um país que conquistou e mantém a sua democracia para que a gente possa fazer o que estamos fazendo aqui. Depois de anos em que manifestações só aconteciam dentro do espaço da ONU, agora, no Brasil, um país do sul global, as praças voltam a ser palco da COP”.
A ministra destacou ainda a responsabilidade do país na condução global da transição climática.
“O Brasil é o único país do mundo que já tem o mapa do caminho para o fim do desmatamento. Reduzimos o desmatamento na Amazônia em 50%, mas ainda não é suficiente. Nosso compromisso é desmatamento zero. Eu agradeço aos povos indígenas, seringueiros, ribeirinhos, quebradeiras de coco, gerazeiros, todos aqueles que têm um estilo de vida compatível com a proteção da natureza”.
No mesmo tom de urgência e firmeza, Sonia Guajajara reforçou que a COP30 marca uma mudança histórica na geopolítica climática.
“Estamos aqui para dizer basta, porque estamos vivendo uma emergência climática. A ONU precisa entender e escutar essas vozes que chegaram em Belém”, afirmou.

Sonia também destacou a centralidade da Amazônia no debate global:
“Chegou a vez da Amazônia falar para o mundo. Aqui se encontra o cerrado, a mata atlântica, o pampa, o pantanal, a caatinga. Aqui se encontra os guardiões e guardiãs da vida”.
Em sua fala, a ministra reiterou o compromisso com a transição energética justa.
“Estamos aqui para reafirmar o compromisso de construir esse mapa do caminho para o fim da dependência dos combustíveis fósseis, para combater o racismo ambiental e toda essa destruição da mãe terra”.
A participação do Comitê Chico Mendes na marcha reforça sua atuação contínua na COP30, pautando soluções para juventudes e povos tradicionais amazônicos, construindo alianças e ampliando a incidência territorial. Ao ocupar as ruas de Belém, o Comitê recupera a política do chão da floresta, sustentada há décadas pelo legado de Chico Mendes. É esse legado que orienta a estratégia da organização na conferência: incidir para que o mundo reconheça que não haverá justiça climática sem reconhecer quem protege e cuida da Amazônia.
Confira a galera de fotos por Alexandre Noronha/Comitê Chico Mendes da Marcha Global pelo Clima:

























